quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O povo escreve a história nas paredes (Mário Lago)

I
E eles vieram pras ruas,
delírio verde nos lábios,
delírio pardo nas almas,
delírio negro nas mãos.
E encheram de gritos as ruas,
porque o povo deixou as ruas
quando eles vieram pras ruas,
delírio verde nos lábios,
delírio pardo nas almas,
delírio negro nas mãos.
Aleguá! Aleguá!
Aleguá, guá-guá!
Três a dois! Três a dois!
Três a dois, dois-dois!


Depois...
Respondeu o eco distante,
em Wall Street! “Three to two!”
, respondeu Franco,
com voz sumida, abafada,
voz sucumbida, esmagada,
pelos gritos, pelo pranto
pelas palavras de angústia,
de apelo desesperado
dos cárceres onde a Espanha
vê a liberdade tombar.
“Três a dois” repetiu Morinigo,
“Três a dois” repetiu Salazar.

Depois...
Houve silêncio nas ruas,
houve silêncio nos campos,
houve silêncio nas fábricas...
Silêncio longe em Pistoia,
silêncio longe no oceano.

Aleguá! Aleguá!
Aleguá! guá-guá!
Três a dois! Três a dois!
Três a dois, dois-dois!

Depois...

II
Noite pesada... de tristeza imensa.
Noite de lágrimas e de descrença.
Noite de mil perguntas doloridas.
Noite de angústia pra milhões de vidas.

E agora, meu companheiro?
Companheira, que fazer?
Fecharam nosso Partido...
Que mais vai acontecer?
E agora, meu companheiro?
Companheira, que fazer?

E agora, meu companheiro?
Como iremos escutar
palavras que indicam rumo
se ninguém pode falar?

E agora, meu companheiro,
quem nos irá defender?
Fecharam nosso Partido...
Que mais vai acontecer?
E agora, meu companheiro?
Companheira, o que fazer?

Fecharam a boca do povo,
Que mais vai acontecer?
Cortaram os braços do povo.
Que mais vai acontecer?
Quem mais vai defender o povo
Quando o mais acontecer?

E agora, meu companheiro?
Companheira, que fazer?
Quem vai pedir para o povo
comida pra ele comer?

Quem mais vai pedir para o povo
escolas pra ele aprender?
Fecharam nosso Partido...
Que mais vai acontecer?

Depois...

III
Depois, quando surgiu o novo dia,
a mesma intrepidez e a mesma valentia,
trinta e três vozes no Distrito,
vozes no norte, no sul,
vozes que o povo escolheu
pra o povo representar,
anunciavam ao céu,
anunciavam ao mar
que o partido do povo ainda
existia,
que o partido do povo não morria
porque o povo não morre e eles
eram o povo.
Sempre se refazendo.
Sempre novo.
Sempre no mesmo rumo.
Sempre novo.
Depois...
IV
Outra noite pesada... de tristeza
imensa.
Outra noite de lágrimas e de
descrença,
Eles voltaram pras ruas,
delírio verde nos lábios,
delírio pardo nas almas,
delírio negro nas mãos.
E encheram de gritos as ruas,
porque o povo deixou as ruas
quando eles vieram pras ruas,
delírio verde nos lábios,
delírio pardo nas almas,
delírio negro nas mãos
ânsia de sangue na boca,
nos gestos, no coração.

Cassação! Cassação!
Cassação! ção-ção!
Cassação! Cassação!
Cassação! ção-ção!

Outra noite de angústia pra
milhões de vidas.
Outra noite de mil perguntas
doloridas.

E agora, meu companheiro,
de onde virá salvação?
Ninguém representa o povo
com a cassação.

Quem vai apontar os crimes,
os crimes da reação?
Cortaram o dedo do povo
com a cassação.

Quem vai punir os traidores,
os traidores que o petróleo
ao dólar entregarão?
Cortaram o braço do povo
Com a cassação.

Quem vai alertar o povo
toda a vez que contra o povo
rasgarem a Constituição?  
Fecharam a boca do povo
com a cassação.

V
Me dá tua mão, companheiro.
Companheira, me dá a mão.
Me dá tua mão,
meu irmão.
Responderei às perguntas,
perguntas que tens nos lábios;
nos olhos, no coração.

Fecharam nosso Partido,
que  é o partido do povo?
Cassaram nossos mandatos,
que são mandatos do povo?
Que importa, meu companheiro?
O povo, não morre, é eterno.
Passam os traidores do povo,
O povo não passa não.

Fecharam nosso Partido?
Cassaram nossos mandatos?
Se amanhã, desesperados,
fecharem nossos jornais?
Que importa? Que importa, irmão?
O povo sabe os caminhos
pra enfrentar a reação.

Não existem linotipos?
Não existem rotativas?
Que importa, meu companheiro?
Há sempre uma mão altiva
pegando um giz ou pincel.
E há muros pela cidade
se nos negarem papel.

Me dá tua mão, companheiro.
Companheira, me dá a mão.
Me dá tua mão,
meu irmão.
Vamos andar na cidade,
verás que eu tenho razão.

Naquele muro... Que lês?
CONSTITUINTE! Talvez,
talvez tu mesmo escreveste
esta palavra. Talvez...

Isso é história, companheiro,
História de uma campanha
que o povo escreveu nos muros
e os muros foram levando
pra consciência nacional.
História que tu escreveste
fazendo daquele muro
o teu imenso jornal.

Olha outro muro... Que lês?
AUTONOMIA! Talvez,
talvez tu mesmo escreveste
esta palavra. Talvez...

Isso é história, companheiro.
História que tu escreveste
à margem das linotipos,
à margem da rotativa
e das tiras de papel.
História que tu escreveste
tendo ideal, mão altiva,
toco de giz ou pincel.

Mulheres – entre a barbárie e os direitos.

Foto extraída do Jornal "Tribuna da Luta Operária"
 http://grabois.org.br/admin/arquivos/arquivo_34_1085.pdf











Por Angelina Anjos

A linguagem do sofrimento é menos original do que se pensa e por isso tão abrangente. Na vivência das mazelas perpetradas pela humanidade, todos e cada um acreditam-se idênticos. Talvez seja o motivo da nossa pouca tolerância com a miséria alheia. Isto mesmo, pouco tolerante.

A exemplo, mãe acorrenta o filho para que ele não consuma drogas.


Olhamos e ficamos passivos. Escutamos e não escutamos com semblantes de mentecaptos.

Por outro lado a linguagem do prazer é original. Sexo, política e futebol – isso escutamos. Com o gozo nos olhos e nos lábios. Treinaram nossa escuta, não ligamos o sofrimento da mãe que acorrenta o filho, com o sarcasmo dos barões do tráfico de drogas.

Diante da apreensão pela Polícia Federal de 450 Kg de pasta base de cocaína num helicóptero de um dos correligionários - desses figadais - do tucano Aécio Neves e a ‘naturalização’ dada pela odiosa grande mídia que aqui reforça a impunidade, revelando que seus padrões são sempre muito perigosos, de dois pesos e duas medidas. 


O caso expressa que tanto os jornalões, como os batráquios dos programas policiais – desses imundos que dizem que direitos humanos é coisa de bandido – querem mesmo é fazer fuzilaria nas favelas, sempre contra os mais pobres, sempre jovens, negros, habitantes de nossas imensas periferias.

O que eles querem é reduzir a idade penal e, ao invés de escolas, construir cadeiões.

Sinto a dor de suas lamentações e revolta com a impunidade. E a impunidade, caríssimas, têm cifrões.

A era Lula-Dilma, 12 anos de prosperidade social, infelizmente, não chegou às togas e aos salões, nada higiênicos, da justiça brasileira.

A mãe que acorrentou o filho também acorrentou sua própria alma e assim o fez porque, ele solto, morto seria pelo vício, pelo tráfico ou pela polícia. 
Não poderia haver amor mais incondicional, desses que nenhum homem entende, até os melhores, de mãe para filho.

Falo isso porque sou mãe, filha, irmã, amiga e companheira de um homem.

E no curso desse sentimento vamos formulando nosso processo feminino, maternal, profissional, sentimental, diante de muitos entraves enfrentando doses cavalares de machismo dentro e fora dos nossos lares.

Somos ainda amordaçadas, traficadas, vítimas de cárcere privado, assassinadas, ocultadas, inferiorizadas e maculadas por concepções do tipo Malafaia que nos secundariza na vida pública, seja nos salários, na representação política e nos direitos.

Mas esse é um período histórico onde as mulheres podem protagonizar um beijinho no ombro do pátrio-poder porque mulher que se preze tem que ter a espingarda de uma Maria Bonita ou a consciência de Bertha Lutz, fundadora da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, de 1922.

Elas estão aqui e dizem aos nossos ouvidos que devemos travar a luta para eleger Dilma porque na governança brasileira não há lugar mais para a misoginia e espancadores de mulheres.

Queremos mais direitos e respeito. A adversidade fez-nos muitas e deixamos de existir como indivíduo, solitárias e passamos a fazer parte de um contingente humano mais numeroso, economicamente forte, heterogêneo e com um protagonismo capaz de assegurar, em boas mãos, os destinos do país. Mas isso só se resolve se entendermos e alastrarmos a nossa participação eleitoral e política.

Temos a tarefa civilizatória de nos ensinar e ensinar aos homens aquilo que Cora Coralina, linda, nos ensinava: “Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir.”

E decidimos por Dilma!




Josias "Jonas" Gonçalves, camponês-guerrilheiro. Foto de João Pina.


terça-feira, 21 de outubro de 2014

Ossadas que podem ser de guerrilheiros do Araguaia seguem cercadas de mistério.

Publicação: 03/11/2013 07:06 Atualização: 03/11/2013 08:52

Forte do Castelo, em Belém do Pará: as ossadas foram descobertas em 2201, durante a reforma na antiga cisterna do edifício (Reprodução Internet Creative Commons / Wikipedia / Fernando Dall'Acqua)
Forte do Castelo, em Belém do Pará: as ossadas foram descobertas em 2201, durante a reforma na antiga cisterna do edifício
Dezembro de 2001, Belém do Pará: um grupo de operários que trabalhava na reforma do chamado Forte do Presépio – também conhecido como Forte do Castelo – encontra ossadas humanas na antiga cisterna do edifício. A empresa responsável pela obra isola o local. No mesmo dia, um homem que se identificou como funcionário da Secretaria de Cultura do Estado recolhe os ossos. Quando o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil da cidade, Moacir Martis, vai visitar a obra no dia seguinte vê apenas um operário desavisado. Posteriormente, ele encontra um “grande buraco onde estava o cadáver”.

Membro da Comissão pela Memória Verdade e Justiça do Pará, o ex-vereador Paulo Fonteles confirma a história contada por Moacir e vai mais longe: “Várias evidências indicam que essas ossadas podem ser de ex-guerrilheiros do Araguaia”. No entanto, Samuel Sóstenes, diretor do Forte – hoje um museu –, nega a existência dos ossos. “Há um laudo do Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) sobre garrafas de igrejas, cerâmicas e objetos antiquíssimos retirados de lá, mas nunca ouvi falar dessas ossadas. Tem muitos mitos sobre o Forte”, diz. Fonteles responde: “É muito curioso. Sempre que tocamos nesse assunto das ossadas, as pessoas tentam encobrir. Ninguém sabe, ninguém viu. Mas, na época, nós fomos lá. Onde há fumaça, há fogo”.

Um ex-agente da Abin do Pará – antigo Serviço Nacional de Informação da ditadura – confirma a denúncia de Fonteles e de Moacir, e afirma que o homem que recolheu as ossadas era um agente da Polícia Militar do Distrito Federal que fora realocado no Pará para servir à Abin e foi transferido novamente para Brasília pouco depois do episódio do forte. Moacir explica que no buraco cavado pelos operários havia um esqueleto, e quando eles voltaram lá para trabalhar havia um buraco maior, “onde outras ossadas devem ter sido retiradas”. Procurada, a Secretaria de Cultura do Pará indicou o Museu Emílio Gueldi para responder sobre o assunto. A reportagem, no entanto, tentou repetidas vezes e não conseguiu fazer contato com representantes da instituição. O Iphan-PA também não respondeu aos questionamentos do Estado de Minas.

DEPOIMENTO Fonteles, à época presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Belém, cita um depoimento do ex-militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN) e sargento do Exército Amado Tupiassu, que teria visto três militantes do PCdoB, dois homens e uma mulher, “custodiados” no Forte, onde funcionou a 5ª Companhia de Guarda do Exército. Outro depoimento citado por ele é o de um camponês chamado Eduardo, colhido pela primeira Caravana de Familiares de Mortos e Desaparecidos da Guerrilha do Araguaia, que disse ter visto um corpo no forte. Fonteles atenta ainda para o fato de que dois ex-funcionários do Exército trabalhavam para a Abin-PA na época em que as ossadas teriam sido achadas: Magnum José Borges, que foi capitão, e Armando Souza Dias, que foi tenente. O ex-vereador afirma que os dois participaram da Guerrilha do Araguaia e destaca que Magnum é “conhecido como cortador de mãos”.

Em 2004, dois ex-agentes da Abin sofreram processos administrativos que envolvem o episódio das ossadas e outras questões internas da agência no Pará e foram exonerados. Um deles, que não quer ser identificado, acusa: “Essa historinha aí de sumir ossada é muito esquisita. Nada some. Foram sumidas”. O ex-agente fez um pedido formal à Controladoria Geral da União para ter acesso aos autos do processo que o demitiu, com base na Lei de Acesso à Informação, mas o pedido foi negado e um recurso apresentado à Casa Civil também foi negado. O pedido argumenta que páginas do processo deveriam ser remetidas à Comissão Nacional da Verdade. A lei estabelece que “informações ou documentos que versem sobre condutas que impliquem violação dos direitos humanos praticada por agentes públicos ou a mando de autoridades públicas não poderão ser objeto de restrição de acesso”.

O ex-deputado federal Eduardo Greenhalgh (PT-SP), que era membro da Comissão de Direitos Humanos da Câmara em 2002, conta que foi procurado por eles e chegou a se pronunciar brevemente sobre o assunto. “Quiseram estabelecer que estavam sendo processados administrativamente única e exclusivamente pelo fato de terem me dado essa informação. Mandei uma carta dizendo que me encontraram, mas que isso não foi o fato principal do processo deles. Não sei de nada sobre essas ossadas, falei para o Paulo (Fonteles) para tocar essa investigação”, afirma.

O Forte do Presépio

Primeiro edifício da cidade de Belém, fundada em 1616, o Forte do Presépio foi de onde partiram as primeiras ruas e fica situado onde nasceu o núcleo inicial de colonização do município. Durante a ditadura militar serviu como a 5ª Companhia de Guarda do Exército e em 2002, após reforma, se transformou no Museu do Forte do Presépio.

A Comissão da Verdade: o direito à memória e à justiça dos paraenses.


Por Paulo Fonteles Filho e Angelina Anjos.


A investigação do passado é fundamental para a construção da identidade e da cidadania. Estudar o passado, resgatar sua verdade e trazer à tona os acontecimentos, caracterizam forma de transmissão de experiência histórica que é essencial para a constituição da memória individual e coletiva.

O encontro dos paraenses com sua história, com seu passado, é um passo significativo na busca da justiça. Esse é o desafio em que deve se pautar a Comissão da Verdade do Pará, criada através da aprovação da Lei Estadual 7.802, sancionada em 31 de Março do corrente ano pelo atual mandatário do Estado e cuja instalação acontecerá no dia 1° de Setembro, amanhã, no São José Liberto, antigo presídio que em tempos de repressão e cerceamento das liberdades públicas, foi usado também como cárcere para presos políticos. 

Mas toda essa conquista está ligada a uma quadra histórica mais avançada, como a que engendrou o aparecimento da Comissão Nacional da Verdade, de profunda dimensão democrática, cujas bases fundamentais foram consolidadas no Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH) – 3, de 2009, no governo Lula e finalmente instalada em 2012, momento em que a Presidência da República é exercida, emblematicamente, pela ex-presa política e barbaramente torturada, Dilma Roussef. 

Os principais objetivos da Comissão da Verdade do Pará são esclarecer os casos de graves violações de direitos humanos ocorridos entre 1946 e 1988, em especial os episódios de torturas, mortes, prisões arbitrárias, desaparecimentos forçados, ocultação de cadáveres, como, também, a autoria desses crimes, em especial nos anos de chumbo.

Acontece que tais desafios se confundem com a realidade e o contexto da Amazônia que, nas décadas de 60, 70 e 80 do século passado, foi alvo de fortíssima penetração econômica, seja nacional e estrangeira, como expressão maior da expansão do grande capital e do latifúndio, responsável até os nossos dias pela degradação ambiental, o trabalho escravo, a grilagem, os crimes de pistolagem e a transferência de nossa imensa riqueza mineral para além-mar, ainda tão comum na realidade dos paraenses na atualidade.

Com a Comissão da Verdade, indispensável ferramenta da Justiça de Transição, poderemos identificar e tornar público o nome dos agentes do Estado, bem como das instituições relacionadas a essas práticas e eventuais ramificações nos diversos aparelhos governamentais e na sociedade. 

Poderemos, ainda, encaminhar aos órgãos públicos competentes toda e qualquer informação obtida que possa auxiliar na localização de corpos e restos mortais de desaparecidos políticos, notadamente na Guerrilha do Araguaia, onde dezenas de brasileiros, entre camponeses e militantes do Partido Comunista do Brasil ainda se encontram desaparecidos nas úmidas terras paraenses.

Aspecto importante dessa tarefa civilizatória é a colaboração com todas as instâncias do poder público para a apuração dos graves crimes cometidos por agentes do estado e recomendar a adoção de medidas e políticas públicas para prevenir a violação de direitos humanos. Com o pleno êxito da Comissão da Verdade, a luta pela justiça no Pará será elevada a um novo patamar, capaz de interromper um longo ciclo de impunidade que assistimos até os nossos dias.

Questão mercurial para a Comissão da Verdade é a mentalidade de que só podemos avançar se conhecermos os fatos que marcaram e definiram os rumos que o Pará seguiu nos últimos 50 anos e promover a construção do futuro sem a repetição dos infames descaminhos do passado, dos tempos de ditadura militar e da repressão política. É, também, um passo decisivo para que seja feita justiça a Benedito Serra, aos Guerrilheiros do Araguaia, a Raimundo Ferreira Lima, Gabriel Pimenta, João Canuto de Oliveira, irmã Adelaide Molinari, Paulo Fonteles, João Batista, Raimundo Jinkings, Sá Pereira, Benedito Monteiro, Ruy Paranatinga Barata, Cléo Bernardo, Levi Hall de Moura e às centenas de paraenses e brasileiros, conhecidos ou anônimos, que foram perseguidos e torturados e deram suas vidas lutando pelas liberdades públicas e a democracia. 

Paulo Fonteles Filho – Membro da Comissão da Verdade Pará. 

Angelina Anjos – Representante do Comitê Paraense pela Verdade, Memória e Justiça.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

TRAILER "ONDE ESTÁ OSVALDÃO?"





















Assista aqui : http://vimeo.com/78592661

Osvaldão, o documentário.

Enquanto Bardella explica-me que os filmes são compostos por células e que as mesmas são como átomos dramáticos, observo, ao longe, a tez de nosso primeiro “Osvaldão”, Bráz Martinho da Silva.
Por Paulo Fonteles Filho.
Como Osvaldo Orlando da Costa veio das Minas Gerais, de Além Paraíba, Zona da Mata, terra mineral onde nasceu o escritor Zuenir Ventura e um dos mais geniais humoristas brasileiros, o eterno corintiano Mazzaropi.
O negro Bráz, 61 anos, jamais colocou bota ou botina e vai percorrendo os caminhos da vida sempre de sandálias. Seus pés quarenta e cinco revelam a rudeza do mundo do trabalho no interior do país.
Acontece que nos deparamos com aquele negralhão porque precisávamos, para compor o documentário sobre a lendária figura guerrilheira de “Osvaldão”, de um toque de dramaticidade, de um vulto vencendo a tarde entre a mata fechada e o dia que virá.
O cenário é o mesmo da caçada final ao movimento insurgente, Brejo Grande do Araguaia. Ali, em fins de 1973, o exército brasileiro promoveu uma das notas mais terríveis de sua história de mais de 300 anos cuja data de nascimento nos remete a Batalha de Guararapes, em 1654, e da figura heróica de Filipe Camarão, figura marcante da Insurreição Pernambucana. O exército da quartelada de 1964 nada tem haver com o evento que o pariu e o projetou na história, lutando contra a invasão estrangeira.
Vandré Fernandes coça a cabeça e troca idéias com Andre Michiles, ambos estão preocupados com a luz do sol que parece se amiudar, como quem dá um tapinha nas costas e marca encontro para a próxima alvorada.
Bráz parece não estar satisfeito, nunca foi ator, nunca foi ao teatro, seu nome escrito é garrancho e só sabe das coisas da roça, de fazenda, sempre trabalhando para o patrão. Não possui terras, apenas a força de suas imensas mãos, braços e pernas.
Contornando o set está o Saranzal, igarapé dos guerrilheiros. Ao longe avistamos o Grotão dos Caboclos, encosta úmida onde tombou Maurício Grabois, principal dirigente político da iniciativa libertária no Sul do Pará.
Outro peão, Maresia, nos diz que há algumas léguas está a Grota da Lima, ribanceira onde tombou “Osvaldão”. Há um corolário das muitas mortes daquele herói negro brasileiro, professados em cordéis camponeses ou na imaginação de seus perseguidores.
Mas o noviço ator revela-se talentoso enquanto a grua registra o mundo acima de nossas cabeças e no fulgor das quenturas amazônicas denuncia o esforço para que certas histórias jamais se apaguem da memória do povo.
Estamos, quase quarenta anos depois, na terral geografia da resistência.
Não acredito em quem escreve ou faz filmes apenas paginando livros ou revisitando imagens: é preciso ir até a região dos acontecimentos, sondar a claridão daquelas manhãs, sentir o arrebatamento das correntezas cortadas pelas pedras pretas, mais antigas que o próprio homem.
Os fotogramas e as retinas, ciência e arte, se unem na espiral inventada pelos Lumière.
Fica decretado que a literatura do cinema reconhecerá espingardas, o surto da liberdade e os pés do povo brasileiro.