quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O Coxinistão, segundo a enciclopédia livre.























Por Paulo Fonteles Filho.

Outros gentílicos também são utilizados: Fascisti, Coxinistano, Tucani, Tucanês e Bolsonariano.

O Coxinistão, oficialmente República do Coxinistão (em coxinistês: Coxinistan Republikasi), é um país esquizofrênico localizado no Higienópolis, na fronteira mental entre os Estados Unidos e o País das Maravilhas.

A sua capital é Cardosogrado.

Considerada uma nação transmisogenal, é membro do Conselho da Casa Grande desde os tempos coloniais.

1.       Historia e Antiguidade:

A região nunca foi unificada, sendo composta por várias tribos reacionárias e se desenvolveram com o tráfico negreiro e a preagem indígena entre os séculos XVI e XIX. Pertence ao protetorado dos Estados Unidos da América a partir do século XX e não há unidade nacional dado à incapacidade reprodutora cuja base está em machos brancos e bombados com suas suásticas.

As evidências mais antigas do estabelecimento machônico no território do Coxinistão datam do fim da Idade da Pedra e estão relacionadas à cultura Hitlerini, da caverna do Reich. As culturas do Paleolítico Superior e do fim da Idade do Bronze são testemunhadas pelas cavernas de Goebbels, Mussolini, Pinochet, Geisel e pelas necrópoles de Roberto Marinho e Civita.

No século XVI, os Frias se assentaram na região. Depois deles, os Civitas e os Marinhos vieram a dominar a região ao sul do Tietê, tecendo um vasto império entre os séculos XVII e XIX, que foi integrado ao Império Coxini por volta do século XX, o qual contribuiu na propagação do passadismo. Mais tarde, a região se tornou parte do império de Cardoso, o Grande e de seu sucessor, o Império Aécenico.

Durante esse período o conservadorismo se espalhou pela região do Mar de Jabor e da Constantinolândia, que, de tão áridos, desertificaram. Os habitantes da Malafaica, originários da Xenofobião, controlaram a área por volta do século XVIII e estabeleceram um reino independente sob a influência cultural de Herodes, o perseguidor de Cristo na infância.

No século XVII, a metade oeste do Coxinistão, incluindo as regiões de Ulstra, Luchini, Telhada, Lobão e Bonner, foi conquistada pelos Bolsonaris sob o comando do Reino de Bolsonari, governado pelas dinastias Jair e Flavio. Depois da união Bolsonari pelos Coxini, poderoso Império do gentílico, as províncias de Marina e de Roger, que tinham populações etnicamente misturadas, passaram ao Coxinistão, depois de muitas babujices e necadas, também depois de soltar os cabelos e copular com o diabo.


2.       Geografia:

Inclui uma área principal, junto aos ruiniformes da  Veja e o enclave da Rede Globo, a sudoeste. O território principal limita a norte com o Mar de Jabor e a Constantinolândia, secos;  a leste com o Mar de Mainardi, também seco; do outro lado do qual se encontram as costas do Felicianistão, a sul com a República Malafaica e a oeste com a Republica de Soros e o enclave de Garrastazu.

O clima, entre temperado e quente zangadiço quando fala o Lulês, língua estranha baseada num ódio figadal a uma figura de linguajem, chamada povo ou brasileiro, ou as duas, povo brasileiro. A temperatura é inóspita para que cresçam as esperanças nas janelas.

Nas terras altas só há escuridão por conta de um fenômeno permanente chamado financisti. Nas cadeias montanhosas do norte e do ocidente só há desertificação e o agreste da alma, não há primavera porque ela está proibida por decreto. Não podiam os Bolsonari lidar com a beleza de uma rosa e as manhãs humanas.

Não há rios ou nascentes .

A vegetação é um árido entrançamento de ódios biliares, mas há também a ocorrência de répteis e carcarás, além de outros predadores morais e chauvinistas.

Não há matas ou florestas, não há nada, além da rala juquira que só o fogo pode produzir. As montanhas do sul estão cobertas de tristezas e de medo.

O país não têm jazidas de petróleo, cobre, manganês, ouro ou urânio.

O Coxinistão apresenta problemas de contaminação do solo devido ao uso de pesticidas. 

Desfolhantes altamente tóxicos foram usados extensivamente nos cultivos das mentalidades.

A contaminação midiática é outro problema grave; aproximadamente a metade da população é servida de esgoto e a outra metade acredita que o homem jamais foi à lua porque isso é coisa de comunista.

3.       Cultura, Demografia e Símbolos Nacionais:

A cultura do Coxinistão surge como o resultado de muitas influências, todas de direita e de suas mais variados matizes, como o totalitarismo, o militarismo, o racismo e a homofobia.
Suas raízes ideológicas estão determinadas pela unidade racial branca que ensejam sua língua, hábitos e território.

Julgam-se – e são mesmos - herdeiros espirituais das Marchas por Deus e a Família, importante celebração da cosmologia e da estética Opus Dei.

Acreditam no lucro, em banqueiros, na prosperidade de rapina e em Miami.

São bem-vestidos e elegantes, se locomovem por estranhos meios, como helicópteros – onde carregam seus badulaques - e outros bólidos turbinados tipo Ferraris e Lamborghinis.

Na literatura se destaca mundialmente com Ali Kamel, o mago platinado e por Olavo de Carvalho,uma espécie de Nostradamus da contemporaneidade. Na música se destaca o maestro Lobão, um wagneriano compositor de óperas bizarricas.

Nos esportes avultam as figuras ludopédicas de Ricardo Teixeira e Ronaldo Gorducho.

Durante muitos anos o Coxinistão desenvolveu um rancor aos povos das redondezas, como é o caso dos brasileiros, venezuelanos, cubanos e bolivianos.

Apesar de minúsculos populacionalmente são fortemente armados e beligerantes e vivem de provocações aos vizinhos continentais, mais fortes, ricos economicamente e culturalmente.

Da população total do país cerca de 90% são de homens brancos e 10% são todas as outras raças, mas sempre é preciso se ter em conta que a alma também é branca, higiênica e livre de qualquer mistura cultural, mesmo que isso lhes cause urticária em dias de carnaval.

A proporção existente entre os sexos naquele país é majoritariamente masculina, quase não há mulheres – só boazudas plastificadas tipo panicat – o que enseja grave problema civilizacional, porque não há reprodução e o orgasmo está ligado à violência, à brutalidade e a pornografia, do tipo zoofílico.

A maior causa de mortalidade é por afogamento no próprio vômito.

Embora o Tucani seja o idioma mais falado no país existem outros idiomas falados como língua materna. O Fascisti é uma língua falada na região Bolsonari , o idioma é escrito com uma versão misturada ao Malafaico, alfabeto latino, próximo ao português. As línguas midiânicas também formam, através dos grupos dos Frias, Civitas e Marinhos um importante legado para o florescimento de uma cultura cosmopolita e universal.

O satanismo xiita é a religião oficial e dominante no país em número de seguidores com 95%.

O Coxinistão é um estado secular; a constituição consagra a liberdade do dinheiro.

A moeda é o dólar americano.

A bandeira nacional é azul com o numero quarenta e cinco, alusivo aos mártires da Batalha de Dilmagrado, e no centro revela-se a existência de uma Vênus Platinada.

O brasão de armas consiste na mistura de símbolos tradicionais e modernos. O ponto focal do emblema é o símbolo do pelourinho, que é uma antiga consigna da terra em que tudo se esfola, principalmente gays, afro-religiosos, comunistas, petistas e piauienses.


"Coxinistan Republikasi mi amore" é o hino nacional do Coxinistão, cujo título original é Marcha do Coxinistão. Com letra do poeta Reinaldo Azevedo e a música é de Ricardo Noblat, adaptada quando o gigante acordou.


Os Estatutos do Homem (Thiago de Mello)


Artigo I 
Fica decretado que agora vale a verdade. 
agora vale a vida, 
e de mãos dadas, 
marcharemos todos pela vida verdadeira. 

Artigo II 
Fica decretado que todos os dias da semana, 
inclusive as terças-feiras mais cinzentas, 
têm direito a converter-se em manhãs de domingo. 

Artigo III 
Fica decretado que, a partir deste instante, 
haverá girassóis em todas as janelas, 
que os girassóis terão direito 
a abrir-se dentro da sombra; 
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, 
abertas para o verde onde cresce a esperança. 

Artigo IV 
Fica decretado que o homem 
não precisará nunca mais 
duvidar do homem. 
Que o homem confiará no homem 
como a palmeira confia no vento, 
como o vento confia no ar, 
como o ar confia no campo azul do céu. 

Parágrafo único: 
O homem, confiará no homem 
como um menino confia em outro menino. 

Artigo V 
Fica decretado que os homens 
estão livres do jugo da mentira. 
Nunca mais será preciso usar 
a couraça do silêncio 
nem a armadura de palavras. 
O homem se sentará à mesa 
com seu olhar limpo 
porque a verdade passará a ser servida 
antes da sobremesa. 

Artigo VI 
Fica estabelecida, durante dez séculos, 
a prática sonhada pelo profeta Isaías, 
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos 
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora. 

Artigo VII 
Por decreto irrevogável fica estabelecido 
o reinado permanente da justiça e da claridade, 
e a alegria será uma bandeira generosa 
para sempre desfraldada na alma do povo. 

Artigo VIII 
Fica decretado que a maior dor 
sempre foi e será sempre 
não poder dar-se amor a quem se ama 
e saber que é a água 
que dá à planta o milagre da flor. 

Artigo IX 
Fica permitido que o pão de cada dia 
tenha no homem o sinal de seu suor. 
Mas que sobretudo tenha 
sempre o quente sabor da ternura. 

Artigo X 
Fica permitido a qualquer pessoa, 
qualquer hora da vida, 
uso do traje branco. 

Artigo XI 
Fica decretado, por definição, 
que o homem é um animal que ama 
e que por isso é belo, 
muito mais belo que a estrela da manhã. 

Artigo XII 
Decreta-se que nada será obrigado 
nem proibido, 
tudo será permitido, 
inclusive brincar com os rinocerontes 
e caminhar pelas tardes 
com uma imensa begônia na lapela. 

Parágrafo único: 
Só uma coisa fica proibida: 
amar sem amor. 

Artigo XIII 
Fica decretado que o dinheiro 
não poderá nunca mais comprar 
o sol das manhãs vindouras. 
Expulso do grande baú do medo, 
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal 
para defender o direito de cantar 
e a festa do dia que chegou. 

Artigo Final. 
Fica proibido o uso da palavra liberdade, 
a qual será suprimida dos dicionários 
e do pântano enganoso das bocas. 
A partir deste instante 
a liberdade será algo vivo e transparente 
como um fogo ou um rio, 
e a sua morada será sempre 
o coração do homem. 


Santiago do Chile, abril de 1964 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O povo escreve a história nas paredes (Mário Lago)

I
E eles vieram pras ruas,
delírio verde nos lábios,
delírio pardo nas almas,
delírio negro nas mãos.
E encheram de gritos as ruas,
porque o povo deixou as ruas
quando eles vieram pras ruas,
delírio verde nos lábios,
delírio pardo nas almas,
delírio negro nas mãos.
Aleguá! Aleguá!
Aleguá, guá-guá!
Três a dois! Três a dois!
Três a dois, dois-dois!


Depois...
Respondeu o eco distante,
em Wall Street! “Three to two!”
, respondeu Franco,
com voz sumida, abafada,
voz sucumbida, esmagada,
pelos gritos, pelo pranto
pelas palavras de angústia,
de apelo desesperado
dos cárceres onde a Espanha
vê a liberdade tombar.
“Três a dois” repetiu Morinigo,
“Três a dois” repetiu Salazar.

Depois...
Houve silêncio nas ruas,
houve silêncio nos campos,
houve silêncio nas fábricas...
Silêncio longe em Pistoia,
silêncio longe no oceano.

Aleguá! Aleguá!
Aleguá! guá-guá!
Três a dois! Três a dois!
Três a dois, dois-dois!

Depois...

II
Noite pesada... de tristeza imensa.
Noite de lágrimas e de descrença.
Noite de mil perguntas doloridas.
Noite de angústia pra milhões de vidas.

E agora, meu companheiro?
Companheira, que fazer?
Fecharam nosso Partido...
Que mais vai acontecer?
E agora, meu companheiro?
Companheira, que fazer?

E agora, meu companheiro?
Como iremos escutar
palavras que indicam rumo
se ninguém pode falar?

E agora, meu companheiro,
quem nos irá defender?
Fecharam nosso Partido...
Que mais vai acontecer?
E agora, meu companheiro?
Companheira, o que fazer?

Fecharam a boca do povo,
Que mais vai acontecer?
Cortaram os braços do povo.
Que mais vai acontecer?
Quem mais vai defender o povo
Quando o mais acontecer?

E agora, meu companheiro?
Companheira, que fazer?
Quem vai pedir para o povo
comida pra ele comer?

Quem mais vai pedir para o povo
escolas pra ele aprender?
Fecharam nosso Partido...
Que mais vai acontecer?

Depois...

III
Depois, quando surgiu o novo dia,
a mesma intrepidez e a mesma valentia,
trinta e três vozes no Distrito,
vozes no norte, no sul,
vozes que o povo escolheu
pra o povo representar,
anunciavam ao céu,
anunciavam ao mar
que o partido do povo ainda
existia,
que o partido do povo não morria
porque o povo não morre e eles
eram o povo.
Sempre se refazendo.
Sempre novo.
Sempre no mesmo rumo.
Sempre novo.
Depois...
IV
Outra noite pesada... de tristeza
imensa.
Outra noite de lágrimas e de
descrença,
Eles voltaram pras ruas,
delírio verde nos lábios,
delírio pardo nas almas,
delírio negro nas mãos.
E encheram de gritos as ruas,
porque o povo deixou as ruas
quando eles vieram pras ruas,
delírio verde nos lábios,
delírio pardo nas almas,
delírio negro nas mãos
ânsia de sangue na boca,
nos gestos, no coração.

Cassação! Cassação!
Cassação! ção-ção!
Cassação! Cassação!
Cassação! ção-ção!

Outra noite de angústia pra
milhões de vidas.
Outra noite de mil perguntas
doloridas.

E agora, meu companheiro,
de onde virá salvação?
Ninguém representa o povo
com a cassação.

Quem vai apontar os crimes,
os crimes da reação?
Cortaram o dedo do povo
com a cassação.

Quem vai punir os traidores,
os traidores que o petróleo
ao dólar entregarão?
Cortaram o braço do povo
Com a cassação.

Quem vai alertar o povo
toda a vez que contra o povo
rasgarem a Constituição?  
Fecharam a boca do povo
com a cassação.

V
Me dá tua mão, companheiro.
Companheira, me dá a mão.
Me dá tua mão,
meu irmão.
Responderei às perguntas,
perguntas que tens nos lábios;
nos olhos, no coração.

Fecharam nosso Partido,
que  é o partido do povo?
Cassaram nossos mandatos,
que são mandatos do povo?
Que importa, meu companheiro?
O povo, não morre, é eterno.
Passam os traidores do povo,
O povo não passa não.

Fecharam nosso Partido?
Cassaram nossos mandatos?
Se amanhã, desesperados,
fecharem nossos jornais?
Que importa? Que importa, irmão?
O povo sabe os caminhos
pra enfrentar a reação.

Não existem linotipos?
Não existem rotativas?
Que importa, meu companheiro?
Há sempre uma mão altiva
pegando um giz ou pincel.
E há muros pela cidade
se nos negarem papel.

Me dá tua mão, companheiro.
Companheira, me dá a mão.
Me dá tua mão,
meu irmão.
Vamos andar na cidade,
verás que eu tenho razão.

Naquele muro... Que lês?
CONSTITUINTE! Talvez,
talvez tu mesmo escreveste
esta palavra. Talvez...

Isso é história, companheiro,
História de uma campanha
que o povo escreveu nos muros
e os muros foram levando
pra consciência nacional.
História que tu escreveste
fazendo daquele muro
o teu imenso jornal.

Olha outro muro... Que lês?
AUTONOMIA! Talvez,
talvez tu mesmo escreveste
esta palavra. Talvez...

Isso é história, companheiro.
História que tu escreveste
à margem das linotipos,
à margem da rotativa
e das tiras de papel.
História que tu escreveste
tendo ideal, mão altiva,
toco de giz ou pincel.

Mulheres – entre a barbárie e os direitos.

Foto extraída do Jornal "Tribuna da Luta Operária"
 http://grabois.org.br/admin/arquivos/arquivo_34_1085.pdf











Por Angelina Anjos

A linguagem do sofrimento é menos original do que se pensa e por isso tão abrangente. Na vivência das mazelas perpetradas pela humanidade, todos e cada um acreditam-se idênticos. Talvez seja o motivo da nossa pouca tolerância com a miséria alheia. Isto mesmo, pouco tolerante.

A exemplo, mãe acorrenta o filho para que ele não consuma drogas.


Olhamos e ficamos passivos. Escutamos e não escutamos com semblantes de mentecaptos.

Por outro lado a linguagem do prazer é original. Sexo, política e futebol – isso escutamos. Com o gozo nos olhos e nos lábios. Treinaram nossa escuta, não ligamos o sofrimento da mãe que acorrenta o filho, com o sarcasmo dos barões do tráfico de drogas.

Diante da apreensão pela Polícia Federal de 450 Kg de pasta base de cocaína num helicóptero de um dos correligionários - desses figadais - do tucano Aécio Neves e a ‘naturalização’ dada pela odiosa grande mídia que aqui reforça a impunidade, revelando que seus padrões são sempre muito perigosos, de dois pesos e duas medidas. 


O caso expressa que tanto os jornalões, como os batráquios dos programas policiais – desses imundos que dizem que direitos humanos é coisa de bandido – querem mesmo é fazer fuzilaria nas favelas, sempre contra os mais pobres, sempre jovens, negros, habitantes de nossas imensas periferias.

O que eles querem é reduzir a idade penal e, ao invés de escolas, construir cadeiões.

Sinto a dor de suas lamentações e revolta com a impunidade. E a impunidade, caríssimas, têm cifrões.

A era Lula-Dilma, 12 anos de prosperidade social, infelizmente, não chegou às togas e aos salões, nada higiênicos, da justiça brasileira.

A mãe que acorrentou o filho também acorrentou sua própria alma e assim o fez porque, ele solto, morto seria pelo vício, pelo tráfico ou pela polícia. 
Não poderia haver amor mais incondicional, desses que nenhum homem entende, até os melhores, de mãe para filho.

Falo isso porque sou mãe, filha, irmã, amiga e companheira de um homem.

E no curso desse sentimento vamos formulando nosso processo feminino, maternal, profissional, sentimental, diante de muitos entraves enfrentando doses cavalares de machismo dentro e fora dos nossos lares.

Somos ainda amordaçadas, traficadas, vítimas de cárcere privado, assassinadas, ocultadas, inferiorizadas e maculadas por concepções do tipo Malafaia que nos secundariza na vida pública, seja nos salários, na representação política e nos direitos.

Mas esse é um período histórico onde as mulheres podem protagonizar um beijinho no ombro do pátrio-poder porque mulher que se preze tem que ter a espingarda de uma Maria Bonita ou a consciência de Bertha Lutz, fundadora da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, de 1922.

Elas estão aqui e dizem aos nossos ouvidos que devemos travar a luta para eleger Dilma porque na governança brasileira não há lugar mais para a misoginia e espancadores de mulheres.

Queremos mais direitos e respeito. A adversidade fez-nos muitas e deixamos de existir como indivíduo, solitárias e passamos a fazer parte de um contingente humano mais numeroso, economicamente forte, heterogêneo e com um protagonismo capaz de assegurar, em boas mãos, os destinos do país. Mas isso só se resolve se entendermos e alastrarmos a nossa participação eleitoral e política.

Temos a tarefa civilizatória de nos ensinar e ensinar aos homens aquilo que Cora Coralina, linda, nos ensinava: “Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir.”

E decidimos por Dilma!




Josias "Jonas" Gonçalves, camponês-guerrilheiro. Foto de João Pina.


terça-feira, 21 de outubro de 2014

Ossadas que podem ser de guerrilheiros do Araguaia seguem cercadas de mistério.

Publicação: 03/11/2013 07:06 Atualização: 03/11/2013 08:52

Forte do Castelo, em Belém do Pará: as ossadas foram descobertas em 2201, durante a reforma na antiga cisterna do edifício (Reprodução Internet Creative Commons / Wikipedia / Fernando Dall'Acqua)
Forte do Castelo, em Belém do Pará: as ossadas foram descobertas em 2201, durante a reforma na antiga cisterna do edifício
Dezembro de 2001, Belém do Pará: um grupo de operários que trabalhava na reforma do chamado Forte do Presépio – também conhecido como Forte do Castelo – encontra ossadas humanas na antiga cisterna do edifício. A empresa responsável pela obra isola o local. No mesmo dia, um homem que se identificou como funcionário da Secretaria de Cultura do Estado recolhe os ossos. Quando o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil da cidade, Moacir Martis, vai visitar a obra no dia seguinte vê apenas um operário desavisado. Posteriormente, ele encontra um “grande buraco onde estava o cadáver”.

Membro da Comissão pela Memória Verdade e Justiça do Pará, o ex-vereador Paulo Fonteles confirma a história contada por Moacir e vai mais longe: “Várias evidências indicam que essas ossadas podem ser de ex-guerrilheiros do Araguaia”. No entanto, Samuel Sóstenes, diretor do Forte – hoje um museu –, nega a existência dos ossos. “Há um laudo do Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) sobre garrafas de igrejas, cerâmicas e objetos antiquíssimos retirados de lá, mas nunca ouvi falar dessas ossadas. Tem muitos mitos sobre o Forte”, diz. Fonteles responde: “É muito curioso. Sempre que tocamos nesse assunto das ossadas, as pessoas tentam encobrir. Ninguém sabe, ninguém viu. Mas, na época, nós fomos lá. Onde há fumaça, há fogo”.

Um ex-agente da Abin do Pará – antigo Serviço Nacional de Informação da ditadura – confirma a denúncia de Fonteles e de Moacir, e afirma que o homem que recolheu as ossadas era um agente da Polícia Militar do Distrito Federal que fora realocado no Pará para servir à Abin e foi transferido novamente para Brasília pouco depois do episódio do forte. Moacir explica que no buraco cavado pelos operários havia um esqueleto, e quando eles voltaram lá para trabalhar havia um buraco maior, “onde outras ossadas devem ter sido retiradas”. Procurada, a Secretaria de Cultura do Pará indicou o Museu Emílio Gueldi para responder sobre o assunto. A reportagem, no entanto, tentou repetidas vezes e não conseguiu fazer contato com representantes da instituição. O Iphan-PA também não respondeu aos questionamentos do Estado de Minas.

DEPOIMENTO Fonteles, à época presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Belém, cita um depoimento do ex-militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN) e sargento do Exército Amado Tupiassu, que teria visto três militantes do PCdoB, dois homens e uma mulher, “custodiados” no Forte, onde funcionou a 5ª Companhia de Guarda do Exército. Outro depoimento citado por ele é o de um camponês chamado Eduardo, colhido pela primeira Caravana de Familiares de Mortos e Desaparecidos da Guerrilha do Araguaia, que disse ter visto um corpo no forte. Fonteles atenta ainda para o fato de que dois ex-funcionários do Exército trabalhavam para a Abin-PA na época em que as ossadas teriam sido achadas: Magnum José Borges, que foi capitão, e Armando Souza Dias, que foi tenente. O ex-vereador afirma que os dois participaram da Guerrilha do Araguaia e destaca que Magnum é “conhecido como cortador de mãos”.

Em 2004, dois ex-agentes da Abin sofreram processos administrativos que envolvem o episódio das ossadas e outras questões internas da agência no Pará e foram exonerados. Um deles, que não quer ser identificado, acusa: “Essa historinha aí de sumir ossada é muito esquisita. Nada some. Foram sumidas”. O ex-agente fez um pedido formal à Controladoria Geral da União para ter acesso aos autos do processo que o demitiu, com base na Lei de Acesso à Informação, mas o pedido foi negado e um recurso apresentado à Casa Civil também foi negado. O pedido argumenta que páginas do processo deveriam ser remetidas à Comissão Nacional da Verdade. A lei estabelece que “informações ou documentos que versem sobre condutas que impliquem violação dos direitos humanos praticada por agentes públicos ou a mando de autoridades públicas não poderão ser objeto de restrição de acesso”.

O ex-deputado federal Eduardo Greenhalgh (PT-SP), que era membro da Comissão de Direitos Humanos da Câmara em 2002, conta que foi procurado por eles e chegou a se pronunciar brevemente sobre o assunto. “Quiseram estabelecer que estavam sendo processados administrativamente única e exclusivamente pelo fato de terem me dado essa informação. Mandei uma carta dizendo que me encontraram, mas que isso não foi o fato principal do processo deles. Não sei de nada sobre essas ossadas, falei para o Paulo (Fonteles) para tocar essa investigação”, afirma.

O Forte do Presépio

Primeiro edifício da cidade de Belém, fundada em 1616, o Forte do Presépio foi de onde partiram as primeiras ruas e fica situado onde nasceu o núcleo inicial de colonização do município. Durante a ditadura militar serviu como a 5ª Companhia de Guarda do Exército e em 2002, após reforma, se transformou no Museu do Forte do Presépio.