domingo, 23 de novembro de 2014

As Ladainhas dos Martírios.

















Por Paulo Fonteles Filho.
                      

Foi num dia perdido de outubro de 2009 que eu, o Beca e o vaqueiro Antônio subimos a Serra dos Martírios. Em mulas, como infantes, íamos pelas grandes pedras, depois de cruzar matas, grotas, fronteiras.

Não haverá dia em que me esqueça desta aventura cavalariça.


Nossa missão era ir até o Urutu, o mais elevado dos morros e que serviu de base de operações militares contra a insurgência guerrilheira araguaiana.


Toda a história do levante em armas passa pelos Martírios e há muito, dizem haver lugares secretos, cavernas secretas, onde os combatentes nos esperam para que possamos continuar contando suas vidas.


A imensa cadeia que se debruça sobre o rio é conhecida desde antes das bandeiras de Bartolomeu Bueno da Silva, pai e filho, os Anhangüeras.


Aqueles sertanistas, apresadores de índios, que depois se transformaram em mineradores, buscavam as minas do ouro, o mais nobre dos metais, e os diamantes dos Martírios. A lenda prosperou desde fins de 1500 através dos relatos dos primeiros portugueses e franceses que estiveram na remota região. Sabe-se que Daniel de La Touche, fundador de São Luís esteve em 1593 atravessando as pontiagudas cachoeiras de Santa Izabel, no baixo Araguaia.


A bandeira dos Anhagüeras  cruzou, por três anos os segredos de vastas regiões brasileiras, costurando a nacionalidade, até a lendária montanha de riquezas que atiçou a cobiça e a imaginação dos brasileiros, ainda um povo em formação, nas lonjuras daqueles séculos XVI, XVII e XVIII.


Aqueles sertanistas, brancos e índios, fundaram vilas e arraiais.


Aqueles paulistas singraram rios e matas, palmilharam o alto sertão brasileiro para encontrar o curso do Rio Vermelho até o imemorial encontro com os Goiá. Depararam-se com índias que estavam ricamente adornadas de ouro e estas não revelaram, aos sertanistas, a procedência das chapas reluzentes do fino metal. Sabe-se que Bartolomeu Bueno, o pai, pôs fogo em aguardente e ameaçou a aldeia, ameaçou queimar rios, bichos, matas e fontes para conseguir o ouro e a localização geográfica de tão opulenta riqueza. É por isso que Anhangüera quer dizer, em tupi, diabo velho.


Naquele dia perdido de 2009, eu refletia sobre aqueles sertões e em minha mente vinha a imagem dos diamantes, em descanso nas águas verdes e rasas, deslumbrando os aventureiros passadistas.


Naquele dia, por todo o dia, o Beca, camponês barbaramente torturado pela repressão política, ia cantando as ladainhas da festa do divino. Como numa reza, murmurando, ia ligeiramente a minha frente, evocando um mantra de proteção para os santos que estão entre nós e que parecem saber das agonias deste Brasil profundo e desconhecido.


Mais ligeiramente à nossa frente seguia Antônio, filho dos galegos, vaqueiro desconfiado e silencioso que parecia ter saído de um cordel que faz morada em toda a civilização do couro. Nossa empreitada parecia ter os elementos do armorial, de Suassuna, porque éramos os três, cavalariços destes tempos, e subíamos com nossos brazões e estandartes percorrendo as cachoeiras, escarpadas e precipícios.


É possível, percebo agora, tocar a natureza do vento agreste com as mãos de quem ouve e sente o mais brasileiro das gentes brasileiras. 


Aqueles que seguiram comigo são, agora compreendo melhor Darcy Ribeiro, como pré-brasileiros porque suas consciências e tudo que há neles, tudo, é a superação das adversidades. São isso porque não podem ser aquilo e também não pretendem viver para todo o sempre a vida que lhes foi destinada. Tal humanidade é a humanidade do meu país.


Aquele dia sempre estará diante de meus olhos porque são dias em que a gente luta muito, e uma profusão de sentimentos vai fazendo-nos amar cada pedra do caminho, cada pássaro nas alturas, cada casa de taipa dos recônditos que se entranham, silenciosos, em nossa própria carne.


Ali, em plena Serra dos Martírios, pude conhecer uma escola. Um verdadeiro paredão rodeia aquela pequena escola, um vento úmido e generoso soprava sobre os viajantes. A imensidão daquela escola parecia se confundir com os elementos de toda a natureza.


Ali estudam meninos e meninas que vieram depois de Anhangüera, depois dos insurgentes araguaianos, depois das botas dos tiranos. É impressionante como a infância resiste em condições em que o obscurantismo poderia ser norma. Se têm escola, defendo, há futuro. Sempre.


E meu coração fica mais tranqüilo porque há livros, poucos, é verdade.

Nosso destino era a casa do mateiro Antônio Preto e depois de horas, chegamos.


E pude auscultar o medo do lavrador diante desta minha tez urbana e o preto, morador daquelas alturas, daquele gigantesco sítio arqueológico,  das “montanhas do Pará” como cantava o baiano Rosalindo nos romanços subversivos, não me falou nada, tampouco olhou em meus olhos, mesmo que eu me lançasse para dentro de suas pupilas lavradoras para recolher aquelas imagens de sangue e de sofrimento. Neste trabalho a gente faz isso, sempre isso.


O medo transformado em silêncio nos dá boas indicações e é preciso compreender os caminhos para que a voz brote, como planta central, para que o tempo se revele, para que os homens se revelem. E não é possível precisar tal nascimento, mas tudo exige decisão política. A fundamental decisão política para tirar do medo e das pedras, a narrativa da verdade.


A cada ladainha do Beca, um sopro sobre os cabelos e um anseio de contar as histórias proibidas há muito tempo, crônicas brutais que fazem do diabo velho sertanista, um passante injustiçado da memória nacional.


Em nossa descida de um dia inteiro, esgueirando pelos perigos desta vida, apenas a sensação do breve retorno, um dia, ao ventre dos Martírios.


Sinto que até as pedras, as mais diminutas pedras, querem falar.  

sábado, 22 de novembro de 2014

Kátia Abreu, a UDR e o tiro no pé de Dilma.



















Em uma entrevista ao jornal paraense 'O Liberal' no dia 15 de março de 2009, a senadora e então dirigente máxima da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Kátia Abreu, expôs as estratégias fundamentais do latifúndio brasileiro para fazer a luta de ideias na sociedade. No fundamental, procurou apresentar a sua classe, historicamente arcaica e violenta, de forma mais palatável para aquilo que chamamos de opinião pública.

Naqueles dias, o governo da petista Ana Júlia (2007/2011) buscava enfrentar a grilagem de terras, o trabalho escravo e os crimes de encomenda, questões centrais do turbulento mapa agrário da Amazônia. Tais medidas fizeram recuar, e muito, os assassinatos de lideranças sindicais e populares. Os índices só voltaram a ‘normalidade’ estatística com o governo tucano de Simão Jatene, mandatário máximo do Pará até os nossos dias.

O centro do discurso da senadora propunha a criação da Rede Social Rural e para isso buscava se apoiar na malsã experiência histórica da União Democrática Ruralista (UDR) e de antigos quadros políticos da grande propriedade rural do Sul do Pará.

O sentido e conteúdo da iniciativa dos ruralistas anunciavam uma nova etapa na contenda pela posse da terra no Pará e no Brasil, tal o nível maior de politização alcançado pela representação máxima do patronato rural tupiniquim.

As bases do discurso e da prática dos oligarcas do campo – da qual Kátia Abreu é um dos principais expoentes – procuram fazer a integração subalterna da agricultura brasileira aos mercados internacionais, com o risco de nossa soberania alimentar e fundamentaram-se, historicamente, com a premissa ideológica de ódio aos movimentos sociais, procurando com o apoio da mídia hegemônica, criminaliza-los.

Para eles, os herdeiros das Sesmarias, o problema é o povo e, concomitantemente, quem organiza a resistência popular e a civilizatória luta pela democratização da terra no Brasil, base indiscutível para nosso desenvolvimento duradouro.

O convite de Dilma para que Kátia Abreu assuma o Ministério da Agricultura cria uma tensão desnecessária com sua base social que, nas ruas e nas redes fizeram a diferença e asseguraram vitória na maior batalha política travada no país desde 1989.

Em 2009, procurando esmiuçar a tática do Agronegócio e estabelecer as necessárias conexões com a ocupação econômica da Amazônia é que escrevi o artigo abaixo:

As mãos que trabalham ou as botas que escravizam?

Por Paulo Fonteles Filho.

Em uma extensa entrevista a um dos mais lidos jornais do Pará, no último domingo, 15 de março, a demo-senadora e dirigente máxima da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Kátia Abreu, expôs com robustez as estratégias fundamentais do latifúndio brasileiro para fazer a luta de ideias na sociedade e, no fundamental, apresentar a sua classe, historicamente arcaica e violenta, de forma mais palatável para aquilo que chamamos de opinião pública.

No corolário de suas vociferações contumazes contra o movimento social camponês, leia-se MST, e contra a governadora Ana Júlia, a demo-senadora propõe a criação da Rede Social Rural, uma espécie de gabinete social sob a consigna de “Mãos que trabalham” e que funcionará em Redenção, sul do Pará.

O município escolhido pelos arautos da grande propriedade rural albergou, em 17 de maio de 1986, o surgimento em terras paraenses da famigerada União Democrática Ruralista - UDR e entre os convidados, o mais ilustre era o presidente da UDR de Goiás, Ronaldo Caiado, além dos prefeitos Arceline Veronese, do próprio município anfitrião e Orlando Mendonça, de Conceição do Araguaia, que foram denunciados pelo então Deputado Estadual Paulo Fonteles na tribuna da Assembleia Legislativa paraense como ávidos participantes de reuniões onde se confeccionavam as macabras listas de marcados para morrer, onde o próprio parlamentar e advogado de trabalhadores rurais teve sua vida ceifada um pouco mais de um ano depois, em junho de 1987.

O curioso é que a derradeira reunião que decretou o fim da UDR no sul do Pará aconteceu em inicios de março de 1991 e o patrimônio ativo e passivo daquela macabra organização fora transferida, como doação, para o Sindicato Rural de Redenção que sediará a propalada "agenda social" dos violentos liderados pela demo-senadora tocantinense.

As ações políticas do latifúndio, trombeteadas por suas lideranças nacionais revelam uma posição de força, ofensiva, e de imediato precisam ser diagnosticadas e combatidas.

O sentido e conteúdo da iniciativa dos ruralistas podem anunciar uma nova etapa na contenda pela posse da terra no Pará e no Brasil, tal o nível maior de politização que engendra a representação máxima do patronato rural tupiniquim.

A atual ofensiva política e ideológica do latifúndio emanam do eixo mais dinâmico e atuante do agrobusiness brasileiro, cujo modelo encontra-se em franca expansão, altamente capitalizado, e se dirige resoluto em direção à Amazônia, território decisivo para se custodiar qualquer projeto de nação.

O fato é que o agronegócio que é a nova indumentária para a mais atrasada estrutura da sociedade brasileira procura, analisando as experiências organizativas passadas, imprimir fôlego contra a histórica bandeira pela democratização das terras do Brasil. E todos nós sabemos que a agenda pública fundiária não está sob a hegemonia da ótica dos trabalhadores, muito ao contrário, e para isso é só observar a tímida reforma agrária do governo Lula. Mas, contraditoriamente, o atual mandatário dos destinos nacionais estabelece uma relação democrática com os agentes mais importantes da luta pela posse da terra no país e este aspecto incomoda, e muito, os setores mais recalcitrantes e xiitas do patronato rural brasileiro.

Analisando experiências passadas, a inteligência da moderna nomenclatura do latifúndio, me parece, vai buscando inspiração em uma das suas mais torpes criaturas que é a própria UDR. A questão aqui não é de mera coincidência geográfica, mas de certo saudosismo por parte do latifúndio no sentido de reeditar a sua mais infame experiência de violações aos direitos humanos a partir da segunda metade do século XX.

E é claro que neste caso a história, em tendência, se repetirá como tragédia e sua maior vocação é intentar contra o próprio Estado Democrático de Direito no sentido de que um banho de sangue pode estar por vir, prática contumaz do latifúndio, antecedida por ameaças e verborragias como faz a demo-senadora Abreu da CNA contra os movimentos sociais e experiências de governos democráticos, como é o caso do Pará.

A questão tem centralidade porque se trata de memória revisitada, aos terríveis e dolorosos exemplos engendrados pela UDR na metade da década de oitenta do século passado. A emergência daquela agremiação fascista estava ligada a duas questões novas para a sociedade brasileira de então, a Redemocratização, conquista histórica do povo brasileiro, depois de vinte e um anos de ditadura militar e o projeto de Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA) que o novo momento procurava engendrar. É preciso que se diga que tal plano fora elaborado no início da Nova República, contando com a elaboração de conhecidas personalidades pró-Reforma Agrária e seu anúncio ocorreu no IV Congresso de Trabalhadores Rurais da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (Contag), em 1985.

O modelo preconizado durante o período dos generais buscou colonizar as fronteiras em favor do grande capital, nacional e estrangeiro, permitindo a expansão do latifúndio improdutivo em escalas galopantes através de vultosos projetos agropecuários e de “modernização” da agricultura brasileira a partir de milhardárias somas em créditos e subsídios estatais que imprimiam novas tecnologias para privilegiar o mercado externo, o que correspondeu a submissão de nossa política agrícola aos interesses estrangeiros. Para se aplicar tal modelo houve uma intensa militarização da questão da fundiária no país e os custos sociais de tal política foram absolutamente desastrosos por conta da elevada exclusão social e, concomitantemente, dos conflitos gerados na luta pela posse da terra.

A UDR, portanto, surgiu como um instrumento daquilo que é arcaico e velho na luta contra o novo e mudancista. Apareceu no cenário político brasileiro como uma radicalização e, sobretudo, como expressão maior da politização do latifúndio em face da elevação do nível da luta pela terra alcançada no país. É claro que o surgimento daquela organização de sombria lembrança fez aparecer certas disputas e desequilíbrios com o tradicional patronato rural brasileiro por conta do papel de liderança de classe, logo, porém, foram dissipadas no curso das ações políticas das oligarquias rurais fruto de um maior nível de unidade dos endinheirados do campo.

O fato é que a UDR fez intensa propaganda através dos muitos leilões realizados que, para além da arrecadação de recursos que seguramente financiaram a liquidação de muitos lutadores do povo, serviam para atrair simpatizantes, sócios novos, além de infundir laços e convivência social, ou seja, valores de retesado apego à propriedade e ao poder econômico.

A grande arma daquela organização, porém, fora a militância de seus quadros e dirigentes, dotados por rigorosa disciplina capazes de intervir no curso dos acontecimentos do Brasil de então. Do ponto de vista numérico, teria passado segundo o estudo da professora Sonia Regina de Mendonça, especialista no assunto e autora de “A classe dominante agrária: natureza e comportamento- 1964/1990” e publicado pela Expressão Popular, de 3 a 5 mil associados em junho de 1986 para cerca de 130 a 230 mil em novembro de 1987.

O lamentável disso tudo é que uma enorme parcela era formada por pequenos e médios proprietários conquistados pela UDR através da propaganda ideológica que reproduzia medo porque satanizava a Reforma Agrária, além, é claro da inabilidade de certos setores sectários que ocupavam ínfimas ou medianas propriedades rurais.

O fato é que o latifúndio tem grande capacidade e experiência política e organizativa e a ofensiva atual que faz prosperar têm como referência o modus-operandi já experimentados e amplamente conhecidos. Afinal, tal acúmulo não data desde 1850 quando se constituiu o moderno mapa agrário brasileiro cuja expressão representou à vitória dos coronéis contrários as posições renovadoras de José Bonifácio, o Patriarca da Independência, que em 1823 já apresentava para a agenda política brasileira, quando dos debates de nossa primeira Constituição, a necessidade de mudanças estruturais como a democratização das terras e a abolição da escravatura? O projeto de nação defendido pelo mais culto e conhecido dos Andradas o levaram à prisão e ao infortúnio do exílio no continente europeu.

As bases do atual discurso dos oligarcas do campo fundamentam-se a partir de odiosas manifestações contra os movimentos sociais, procurando com o apoio da grande mídia, criminaliza-los. Aqui o problema é o povo e, concomitantemente, quem organiza a resistência popular.

Procuram, portanto, impedir o novo, açodar o que é pujante e brota da consciência social avançada e têm em sua conduta mais lancinante e temerária a manutenção de uma estrutura que mais nos liga a um passado colonial que haveremos de superar pela própria necessidade histórica do desenvolvimento da civilização brasileira.

Afinal, o que está incluso nas provocações da demo-senadora Abreu, senão a contumaz e visceral violência do latifúndio com seus escravocratas e assassinos? E as violações aos direitos humanos perpetrados pelos donos do poder no campo brasileiro já superaram, em muito, questões pontuais ou táticas, aparecem no limiar do século XXI como estratégia para manutenção e perpetuação do poder dos coronéis, velhos lobos felpudos travestidos de cordeiros legalistas.


O que podemos esperar da “agenda social” dos grandes proprietários senão a agudização dos conflitos no campo?

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Sobreviventes da Casa Azul cobram assistência do governo.

Maíra Heinen* – Enviada Especial da EBC Edição: Lílian Beraldo
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O comerciante Pedro Borba não se sentiu à vontade para entrar na casa onde ficou preso e sofreu maus-tratos no ano de 1972. Mas, nas sombras do quintal, ele deu detalhes de algumas torturas aplicadas ali.
Sob acusação de ter vendido suprimentos para integrantes da Guerrilha do Araguaia, Pedro ficou preso durante dois dias na Casa Azul e foi obrigado, pelos militares, a comer intestino de porco cru e grãos de feijão. Além disso, passou cerca de 40 dias nu e 14 dias sem comer do lado de fora da casa. Naquele quintal, ele conta que viu militares enterrarem pessoas vivas.
Segundo ele, as pessoas eram colocadas de cabeça para baixo em um buraco estreito e ficavam cerca de uma hora e meia nesse local. Os militares diziam que, dessa forma, as vítimas forneceriam as informações. Enquanto capinava o quintal a mando dos militares, ele viu pessoas da comunidade saírem praticamente mortas dessas valas.
Todos os sobreviventes que deram depoimentos à Comissão Nacional da Verdade na Casa Azul, entre eles o soldado Manuel Messias Guido Ribeiro, citaram o nome de Sebastião Rodrigues de Moura, mais conhecido como Major Curió, como um dos responsáveis pelas sessões de tortura.
“Lá, a gente não sabia nome. Todos os oficiais eram chamados de doutores. Era o Curió, que era chamado de Luquinha. O Curió foi meu comandante, ficava aqui muito tempo”, relata Guido, que foi recrutado pelo Exército para servir na “guerra contra comunistas”, mas tinha pena dos prisioneiros.
Curió já foi convocado algumas vezes pela Comissão da Verdade para prestar depoimentos, mas nunca aceitou os convites, apresentando atestados médicos. A reportagem falou por telefone com o major, que alegou estar internado e que não poderia conceder entrevista.
Na opinião de Sezostrys Alves da Costa, presidente da Associação de Torturados e Torturadas da Guerrilha do Araguaia, os militares envolvidos nas sessões de tortura deveriam ser punidos. O pai, o avô e alguns tios de Sezostrys também foram presos na Casa Azul.
“Diante da gravidade dos atos praticados aqui, e ainda pouco se tem de dados oficiais em relação a isso, eu creio e defendo a tese de que a punição seria o melhor caminho, mesmo que talvez eles não sejam presos, mas para a sociedade, que os culpados sejam expostos para que a gente possa ter acesso às verdades daquele tempo.”
Mas ainda é possível que a Casa Azul tenha uma boa destinação e que as vítimas sejam assistidas. O reitor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), Maurílio de Abreu Monteiro, revelou à Comissão da Verdade o interesse da instituição em transformar o local em uma espécie de museu, em memória de todas as vítimas da Guerrilha do Araguaia.
A Comissão Estadual da Verdade do Pará, que acompanhou a diligência à Casa Azul, pretende cobrar do governo estadual um programa especial para atendimento psicológico e de saúde aos sobreviventes.
O material apurado pela Comissão Nacional da Verdade será encaminhado à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Os trabalhos da comissão se encerram no dia 16 de dezembro deste ano.

* A repórter viajou a convite da Comissão Nacional da Verdade

Vítimas da ditadura eram obrigadas a ajudar militares que atuavam na Casa Azul.


Maíra Heinen – Enviada Especial da EBC* Edição: Lílian Beraldo

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“O caso da Casa Azul foi muito impressionante porque, provavelmente, foi o maior centro clandestino [que existiu]”, relata a professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Heloísa Starling.
A especialista coordenou as pesquisas sobre os centros de tortura existentes durante o período militar e espalhados pelo país. Os estudos mostram que a casa localizada no sudeste do Pará não era um simples centro de interrogatórios. “Tem uma coisa interessantíssima: o tempo todo você tem um observador militar do Planalto, dentro da Casa Azul. Isso mostra a ligação direta com o Alto Comando [das Forças Armadas]”.
Trechos do livro Direito à Memória e à Verdade, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, citam que uma investigação realizada pelo Ministério Público Federal, em 2001, por meio de depoimentos, identificou a instalação de quatro bases militares na região sul e sudeste do Pará.
Em Marabá, além da Casa Azul, eram utilizados mais dois imóveis: a sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e um presídio militar. Em São Domingos do Araguaia estava localizado o presídio da Bacaba onde era feita a triagem dos camponeses suspeitos. Dali, alguns seguiam para a Casa Azul.
O Alto Comando em Brasília provavelmente soube o que se passou com o soldado Manuel Messias Guido Ribeiro. Ele foi recrutado pelo Exército para servir na “guerra contra comunistas”, mas tinha pena dos prisioneiros.
Manuel conta que também foi torturado, o que era chamado, pelos militares, de treinamento, para que ele se brutalizasse e esquecesse da dignidade dos detentos.
O “treinamento” de Guido, entretanto, não surtiu o efeito esperado. Ele conta que levou água e comida para os torturados em muitas noites e que não participou de nenhuma sessão de tortura, pois apenas os chamados “doutores” estavam autorizados.
Na casa abandonada, as memórias de Guido Ribeiro foram retornando aos poucos. Durante os relatos à Comissão Nacional da Verdade, em meados de setembro deste ano, ele suava de calor, mas também de nervosismo, causado pelas lembranças.
“Aqui tinha mais presos do que poderia caber numa cela. Eram torturados. O que o senhor pensar de tortura que pode ser feita, foram feitas. Choques, colocava [a pessoa] em cima de duas latinhas e dava choque nas latas. Tinha até uma música, horrível, não consigo esquecer aquela desgraça”, lembra chorando.
“É torturante. A música era assim: 'era um tal de mexe-mexe, era um tal de pula- pula, quem tá em cima não cai, quem tá embaixo segura'. E davam o choque.”
Após seis anos, Guido foi dispensado de servir os militares. Alguns dos homens que ele viu sofrer na Casa Azul morreram, e seus corpos seguiram para um local em que eram enterrados clandestinamente a mando dos militares. Nesse local, hoje, funciona o Cemitério da Saudade.
Os irmãos Ivan Jorge Dias e Ivaldo José Dias carregaram, entre os anos de 72 e 73, o peso de corpos inocentes para lá. Os irmãos também foram vítimas de tortura e eram obrigados a fazer o serviço. Retornar ao cemitério com a Comissão Nacional da Verdade foi, para eles, mais um ato de coragem.
Ivaldo segurou o choro enquanto mostrava os locais onde possivelmente estariam enterrados alguns corpos da guerrilha que passaram pela Casa Azul. “Me dá vontade de chorar, sinceramente. Eu estou me segurando para não chorar de tristeza do que eu passei aqui nessa região, na época. Eu não estou bem não, mas, perto daquela época e do que eu passei, estou superado, graças a Deus.”
Os sobreviventes ainda hoje sentem muito medo e aguardam uma reparação pelos danos físicos e psicológicos por parte do governo brasileiro. Enquanto isso, convivem diariamente com pesadelos e noites mal dormidas nas quais revivem as angústias pelas quais passaram.

*A repórter viajou a convite da Comissão Nacional da Verdade

Comissão da Verdade resgata histórias de antigo centro de tortura em Marabá.

Maíra Heinen* - Enviada Especial da EBC Edição: Lílian Beraldo
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Às margens da Rodovia Transamazônica, em Marabá, no Pará, um local guarda histórias que muitos moradores da cidade nunca ouviram falar. O nome Casa Azul pode até parecer um título de contos infantis, mas em nada combina com os horrores vividos por quem passou pelo local na década de 70.
Utilizada como centro clandestino de tortura e morte, na época da ditadura militar, a Casa Azul foi o destino de muitos guerrilheiros que atuaram no Araguaia e também de camponeses. Para dar um ar de legalidade e evitar desconfianças, lá funcionava também o extinto Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER).  Hoje o local abriga a sede do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).
Em um imenso quintal cheio de árvores e sombras, o lugar é um complexo de pequenas casas espalhadas em um terreno. Uma, especificamente, foi apontada por sobreviventes como o local da maioria das torturas. Ela estava abandonada e lacrada quando, na segunda quinzena de setembro, a Comissão Nacional da Verdade foi a Marabá fazer uma de suas últimas diligências na região do Araguaia. Foi preciso arrombar o portão de grades para entrar. A poeira e as teias de aranha nas janelas azuis dividiam espaço com entulho em alguns cômodos.
Depois de décadas, Raimundo de Sousa Cruz, mais conhecido como Barbadinho, entrou novamente nas salas em que levou choques elétricos, tapas e chutes. Acompanhando a Comissão, o senhor de 84 anos que era dono de uma pequena mercearia se emocionou. Na época, Barbadinho não sabia direito porque apanhava, mas quando foi questionado pelos militares, confirmou ter conversado com pessoas que o regime classificava como terroristas. “Eu levei choque demais ali. Empurrão, ponta pé. Eles perguntavam se eu conhecia alguém. Eu dizia: 'conheci sim'. Aí eu contei a história de seis horas da manhã até onze e meia da noite”. Dentro da pequena sala, ele tremia, e a voz ficava embargada.
A psicóloga da Comissão Estadual da Verdade do Pará, Jurelda Guerra, explica que a reação de Barbadinho é comum. Segundo ela, todos os torturados - a maioria senhores com mais de 70 anos – apresentam sintomas parecidos, por causa dos traumas físicos e psicológicos. “Medo, sonhos na madrugada, sonhos assim com terror. Acordam com taquicardia. Acordam com medo, muito choro.Todos eles choravam ao falar. O sentimento de desesperança pode ser uma consequência da depressão. Todos têm uma melancolia, todos têm uma tristeza, um sentimento de impotência”, ressaltou.
Apesar de as vítimas apresentarem dificuldades para expor o que passaram na Casa Azul, o coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Pedro Dallari, ratifica a importância do ritual. “A presença da Comissão Nacional da Verdade em locais onde houve graves violações de direitos humanos, é muito importante porque  estimula os testemunhos, os depoimentos tanto de vítimas, como de agentes. E isso forma a convicção da comissão”, destacou.
Barbadinho não foi o único a entrar na casa novamente. Outras vítimas e até um soldado recrutado pelo Exército resolveram voltar lá e contar o que passaram no lugar classificado por eles como casa dos horrores.

*A repórter viajou a convite da Comissão Nacional da Verdade

Centros de Detenções e de Tortura no Pará - Ditadura Militar.















Informações coletadas junto à Comissão Nacional da Verdade (CNV), Grupo de Trabalho Tocantins (2009/2010), Grupo de Trabalho Araguaia (2011/2014), Associação dos Torturados na Guerrilha do Araguaia (ATGA), Associação dos Ex-Combatentes do Araguaia e Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

Por Paulo Fonteles Filho.

*Belém: 
Hospital Geral de Belém, 
5ª Companhia de Guardas,
Comando da 8º Região Militar, 
Quartel da Gaspar Vianna (PM),
Presídio São José,
Aeroporto de Belém,
2° Batalhão de Infantaria de Selva,
4° Distrito Naval,
Tiro-de-Guerra General Dutra,
Hospital da Aeronáutica.

*Marabá:
Antiga Central de Polícia (Velha Marabá), 
Antigo Tiro-de-Guerra (Cidade Nova),
Casa Azul (atual sede do Dnit),
Aeroporto de Marabá,
52° Batalhão de Infantaria de Selva,
"Casa do Tuma" - Dops (Cidade Nova),
Incra.

*São Domingos do Araguaia:
Base da Bacaba.

*São Geraldo do Araguaia:
Base de São Raimundo.

*Piçarra do Pará:
Base da Marcilinense.

*Castanhal:
Tiro-de-Guerra.


Onde está Uirassu de Assis Batista?




















A foto revela o guerrilheiro desaparecido Uirassu de Assis Batista, o "Valdir" - com as mãos para trás, como se estivesse algemado - sob a vigilância de militares em alguma das muitas bases montadas no Araguaia, no ínício de 1974. Tal imagem foi recolhida pelo pesquisador Paulo Fonteles Filho, em 1996.