terça-feira, 21 de outubro de 2014

Ossadas que podem ser de guerrilheiros do Araguaia seguem cercadas de mistério.

Publicação: 03/11/2013 07:06 Atualização: 03/11/2013 08:52

Forte do Castelo, em Belém do Pará: as ossadas foram descobertas em 2201, durante a reforma na antiga cisterna do edifício (Reprodução Internet Creative Commons / Wikipedia / Fernando Dall'Acqua)
Forte do Castelo, em Belém do Pará: as ossadas foram descobertas em 2201, durante a reforma na antiga cisterna do edifício
Dezembro de 2001, Belém do Pará: um grupo de operários que trabalhava na reforma do chamado Forte do Presépio – também conhecido como Forte do Castelo – encontra ossadas humanas na antiga cisterna do edifício. A empresa responsável pela obra isola o local. No mesmo dia, um homem que se identificou como funcionário da Secretaria de Cultura do Estado recolhe os ossos. Quando o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil da cidade, Moacir Martis, vai visitar a obra no dia seguinte vê apenas um operário desavisado. Posteriormente, ele encontra um “grande buraco onde estava o cadáver”.

Membro da Comissão pela Memória Verdade e Justiça do Pará, o ex-vereador Paulo Fonteles confirma a história contada por Moacir e vai mais longe: “Várias evidências indicam que essas ossadas podem ser de ex-guerrilheiros do Araguaia”. No entanto, Samuel Sóstenes, diretor do Forte – hoje um museu –, nega a existência dos ossos. “Há um laudo do Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) sobre garrafas de igrejas, cerâmicas e objetos antiquíssimos retirados de lá, mas nunca ouvi falar dessas ossadas. Tem muitos mitos sobre o Forte”, diz. Fonteles responde: “É muito curioso. Sempre que tocamos nesse assunto das ossadas, as pessoas tentam encobrir. Ninguém sabe, ninguém viu. Mas, na época, nós fomos lá. Onde há fumaça, há fogo”.

Um ex-agente da Abin do Pará – antigo Serviço Nacional de Informação da ditadura – confirma a denúncia de Fonteles e de Moacir, e afirma que o homem que recolheu as ossadas era um agente da Polícia Militar do Distrito Federal que fora realocado no Pará para servir à Abin e foi transferido novamente para Brasília pouco depois do episódio do forte. Moacir explica que no buraco cavado pelos operários havia um esqueleto, e quando eles voltaram lá para trabalhar havia um buraco maior, “onde outras ossadas devem ter sido retiradas”. Procurada, a Secretaria de Cultura do Pará indicou o Museu Emílio Gueldi para responder sobre o assunto. A reportagem, no entanto, tentou repetidas vezes e não conseguiu fazer contato com representantes da instituição. O Iphan-PA também não respondeu aos questionamentos do Estado de Minas.

DEPOIMENTO Fonteles, à época presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Belém, cita um depoimento do ex-militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN) e sargento do Exército Amado Tupiassu, que teria visto três militantes do PCdoB, dois homens e uma mulher, “custodiados” no Forte, onde funcionou a 5ª Companhia de Guarda do Exército. Outro depoimento citado por ele é o de um camponês chamado Eduardo, colhido pela primeira Caravana de Familiares de Mortos e Desaparecidos da Guerrilha do Araguaia, que disse ter visto um corpo no forte. Fonteles atenta ainda para o fato de que dois ex-funcionários do Exército trabalhavam para a Abin-PA na época em que as ossadas teriam sido achadas: Magnum José Borges, que foi capitão, e Armando Souza Dias, que foi tenente. O ex-vereador afirma que os dois participaram da Guerrilha do Araguaia e destaca que Magnum é “conhecido como cortador de mãos”.

Em 2004, dois ex-agentes da Abin sofreram processos administrativos que envolvem o episódio das ossadas e outras questões internas da agência no Pará e foram exonerados. Um deles, que não quer ser identificado, acusa: “Essa historinha aí de sumir ossada é muito esquisita. Nada some. Foram sumidas”. O ex-agente fez um pedido formal à Controladoria Geral da União para ter acesso aos autos do processo que o demitiu, com base na Lei de Acesso à Informação, mas o pedido foi negado e um recurso apresentado à Casa Civil também foi negado. O pedido argumenta que páginas do processo deveriam ser remetidas à Comissão Nacional da Verdade. A lei estabelece que “informações ou documentos que versem sobre condutas que impliquem violação dos direitos humanos praticada por agentes públicos ou a mando de autoridades públicas não poderão ser objeto de restrição de acesso”.

O ex-deputado federal Eduardo Greenhalgh (PT-SP), que era membro da Comissão de Direitos Humanos da Câmara em 2002, conta que foi procurado por eles e chegou a se pronunciar brevemente sobre o assunto. “Quiseram estabelecer que estavam sendo processados administrativamente única e exclusivamente pelo fato de terem me dado essa informação. Mandei uma carta dizendo que me encontraram, mas que isso não foi o fato principal do processo deles. Não sei de nada sobre essas ossadas, falei para o Paulo (Fonteles) para tocar essa investigação”, afirma.

O Forte do Presépio

Primeiro edifício da cidade de Belém, fundada em 1616, o Forte do Presépio foi de onde partiram as primeiras ruas e fica situado onde nasceu o núcleo inicial de colonização do município. Durante a ditadura militar serviu como a 5ª Companhia de Guarda do Exército e em 2002, após reforma, se transformou no Museu do Forte do Presépio.

A Comissão da Verdade: o direito à memória e à justiça dos paraenses.


Por Paulo Fonteles Filho e Angelina Anjos.


A investigação do passado é fundamental para a construção da identidade e da cidadania. Estudar o passado, resgatar sua verdade e trazer à tona os acontecimentos, caracterizam forma de transmissão de experiência histórica que é essencial para a constituição da memória individual e coletiva.

O encontro dos paraenses com sua história, com seu passado, é um passo significativo na busca da justiça. Esse é o desafio em que deve se pautar a Comissão da Verdade do Pará, criada através da aprovação da Lei Estadual 7.802, sancionada em 31 de Março do corrente ano pelo atual mandatário do Estado e cuja instalação acontecerá no dia 1° de Setembro, amanhã, no São José Liberto, antigo presídio que em tempos de repressão e cerceamento das liberdades públicas, foi usado também como cárcere para presos políticos. 

Mas toda essa conquista está ligada a uma quadra histórica mais avançada, como a que engendrou o aparecimento da Comissão Nacional da Verdade, de profunda dimensão democrática, cujas bases fundamentais foram consolidadas no Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH) – 3, de 2009, no governo Lula e finalmente instalada em 2012, momento em que a Presidência da República é exercida, emblematicamente, pela ex-presa política e barbaramente torturada, Dilma Roussef. 

Os principais objetivos da Comissão da Verdade do Pará são esclarecer os casos de graves violações de direitos humanos ocorridos entre 1946 e 1988, em especial os episódios de torturas, mortes, prisões arbitrárias, desaparecimentos forçados, ocultação de cadáveres, como, também, a autoria desses crimes, em especial nos anos de chumbo.

Acontece que tais desafios se confundem com a realidade e o contexto da Amazônia que, nas décadas de 60, 70 e 80 do século passado, foi alvo de fortíssima penetração econômica, seja nacional e estrangeira, como expressão maior da expansão do grande capital e do latifúndio, responsável até os nossos dias pela degradação ambiental, o trabalho escravo, a grilagem, os crimes de pistolagem e a transferência de nossa imensa riqueza mineral para além-mar, ainda tão comum na realidade dos paraenses na atualidade.

Com a Comissão da Verdade, indispensável ferramenta da Justiça de Transição, poderemos identificar e tornar público o nome dos agentes do Estado, bem como das instituições relacionadas a essas práticas e eventuais ramificações nos diversos aparelhos governamentais e na sociedade. 

Poderemos, ainda, encaminhar aos órgãos públicos competentes toda e qualquer informação obtida que possa auxiliar na localização de corpos e restos mortais de desaparecidos políticos, notadamente na Guerrilha do Araguaia, onde dezenas de brasileiros, entre camponeses e militantes do Partido Comunista do Brasil ainda se encontram desaparecidos nas úmidas terras paraenses.

Aspecto importante dessa tarefa civilizatória é a colaboração com todas as instâncias do poder público para a apuração dos graves crimes cometidos por agentes do estado e recomendar a adoção de medidas e políticas públicas para prevenir a violação de direitos humanos. Com o pleno êxito da Comissão da Verdade, a luta pela justiça no Pará será elevada a um novo patamar, capaz de interromper um longo ciclo de impunidade que assistimos até os nossos dias.

Questão mercurial para a Comissão da Verdade é a mentalidade de que só podemos avançar se conhecermos os fatos que marcaram e definiram os rumos que o Pará seguiu nos últimos 50 anos e promover a construção do futuro sem a repetição dos infames descaminhos do passado, dos tempos de ditadura militar e da repressão política. É, também, um passo decisivo para que seja feita justiça a Benedito Serra, aos Guerrilheiros do Araguaia, a Raimundo Ferreira Lima, Gabriel Pimenta, João Canuto de Oliveira, irmã Adelaide Molinari, Paulo Fonteles, João Batista, Raimundo Jinkings, Sá Pereira, Benedito Monteiro, Ruy Paranatinga Barata, Cléo Bernardo, Levi Hall de Moura e às centenas de paraenses e brasileiros, conhecidos ou anônimos, que foram perseguidos e torturados e deram suas vidas lutando pelas liberdades públicas e a democracia. 

Paulo Fonteles Filho – Membro da Comissão da Verdade Pará. 

Angelina Anjos – Representante do Comitê Paraense pela Verdade, Memória e Justiça.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

TRAILER "ONDE ESTÁ OSVALDÃO?"





















Assista aqui : http://vimeo.com/78592661

Osvaldão, o documentário.

Enquanto Bardella explica-me que os filmes são compostos por células e que as mesmas são como átomos dramáticos, observo, ao longe, a tez de nosso primeiro “Osvaldão”, Bráz Martinho da Silva.
Por Paulo Fonteles Filho.
Como Osvaldo Orlando da Costa veio das Minas Gerais, de Além Paraíba, Zona da Mata, terra mineral onde nasceu o escritor Zuenir Ventura e um dos mais geniais humoristas brasileiros, o eterno corintiano Mazzaropi.
O negro Bráz, 61 anos, jamais colocou bota ou botina e vai percorrendo os caminhos da vida sempre de sandálias. Seus pés quarenta e cinco revelam a rudeza do mundo do trabalho no interior do país.
Acontece que nos deparamos com aquele negralhão porque precisávamos, para compor o documentário sobre a lendária figura guerrilheira de “Osvaldão”, de um toque de dramaticidade, de um vulto vencendo a tarde entre a mata fechada e o dia que virá.
O cenário é o mesmo da caçada final ao movimento insurgente, Brejo Grande do Araguaia. Ali, em fins de 1973, o exército brasileiro promoveu uma das notas mais terríveis de sua história de mais de 300 anos cuja data de nascimento nos remete a Batalha de Guararapes, em 1654, e da figura heróica de Filipe Camarão, figura marcante da Insurreição Pernambucana. O exército da quartelada de 1964 nada tem haver com o evento que o pariu e o projetou na história, lutando contra a invasão estrangeira.
Vandré Fernandes coça a cabeça e troca idéias com Andre Michiles, ambos estão preocupados com a luz do sol que parece se amiudar, como quem dá um tapinha nas costas e marca encontro para a próxima alvorada.
Bráz parece não estar satisfeito, nunca foi ator, nunca foi ao teatro, seu nome escrito é garrancho e só sabe das coisas da roça, de fazenda, sempre trabalhando para o patrão. Não possui terras, apenas a força de suas imensas mãos, braços e pernas.
Contornando o set está o Saranzal, igarapé dos guerrilheiros. Ao longe avistamos o Grotão dos Caboclos, encosta úmida onde tombou Maurício Grabois, principal dirigente político da iniciativa libertária no Sul do Pará.
Outro peão, Maresia, nos diz que há algumas léguas está a Grota da Lima, ribanceira onde tombou “Osvaldão”. Há um corolário das muitas mortes daquele herói negro brasileiro, professados em cordéis camponeses ou na imaginação de seus perseguidores.
Mas o noviço ator revela-se talentoso enquanto a grua registra o mundo acima de nossas cabeças e no fulgor das quenturas amazônicas denuncia o esforço para que certas histórias jamais se apaguem da memória do povo.
Estamos, quase quarenta anos depois, na terral geografia da resistência.
Não acredito em quem escreve ou faz filmes apenas paginando livros ou revisitando imagens: é preciso ir até a região dos acontecimentos, sondar a claridão daquelas manhãs, sentir o arrebatamento das correntezas cortadas pelas pedras pretas, mais antigas que o próprio homem.
Os fotogramas e as retinas, ciência e arte, se unem na espiral inventada pelos Lumière.
Fica decretado que a literatura do cinema reconhecerá espingardas, o surto da liberdade e os pés do povo brasileiro.

O encontro de Osvaldão com o gato-maracajá.

O gato maracajáO gato maracajá

Corria 1968 e a diáspora de insurgentes para a região araguaiana só aconteceria meses depois, com a edição do Ato Institucional N°5, em 13 de dezembro.


Por Paulo Fonteles Filho.


Como a noite mais escura, sem lua, estelar, Osvaldão se prepara para a guerra que virá, e flutua sobre as folhagens. Seus pés, imensos, são tão silenciosos, tão sem ruídos, que os bichos cruzam-lhe os caminhos, misto de cerrado e floresta. Um tatu-canastra será almoço e janta, dia seguinte.
A vastidão da serra tem cheiro suave, de âmbar. As águas, cristalinas, surgem-lhe dos segredos dos penhascos, rito lúdico e geológico.


Osvaldo Orlando da Costa , o Osvaldão

Ali estão floradas as dezenas espécies de orquídeas que enfeitam as estruturas ruiniformes, totens minerais de milhões de anos. As pedras se debruçam sobre o tempo que vai se encarregando de moldá-las, dia após dia, ano após ano, pelas eras, desde tempos imemoriais.

O gavião-real espreita as faces dos lajedos e observa, sereno, o largo rio Paraupava, rebatizado Araguaia quando, em 1590, as bandeiras de Antônio Macedo e Domingos Luís Grou alçaram, por curvas sinuosas, vencendo banzeiros e pedrais, a região que ficaria conhecida por Martírios.

O negríssimo já sabia, porque era engenheiro de minas, das ametistas e diamantes. Nas cercanias, em Santa Izabel, organizou o garimpo de Itamirim. Lá chefiava um barranco.

Seguindo os rastros de povos ancestrais, tem como companhia o jovem Umassú, aikewára, povo nadador, das águas, tão antigo quanto o esquecimento.

Mas o vento sopra entre as rochas e escarpadas trazendo o hálito felino do maracajá.
O gato-do-mato, esguio e lépido, cinza-amarelado, semelhante à jaguatirica, fuça os esconderijos do mateiro, palmilha o rumo ignorado de cotias, antas e mutuns.

São tempos em que a atividade de mariscar gato está presente no contexto econômico da Amazônia e o couro do bichano, de beleza simétrica, visualmente imponente, torna-se bastante rentável e seu comércio faz prosperar regatões em vilas e pequenas cidades debruçadas sobre os caudalosos Araguaia e Tocantins, na confluência do Pará, Maranhão e Goiás.

Preto e índio, cafuzos na amizade, unidos pela noite e pela sobrevivência, silenciosos, armados de espingardas, ouvem ao longe o rugir que ecoa no altiplano assustando puçás e cajuís, as pedras também se assustam, as gentes sentem o estorvo, a madrugada se alvoroça e as estrelas, suspensas, pedem abrigo em toda escuridão.

Dizem que as estrelas só vão dormir depois de avisadas pelo gato-do-mato. Tal código, milenar, aquele mineiro de Passa-Quatro já compreendia. Assim contou-nos Umassú, recentemente.
Mas o gato-maracajá é mais esperto, conhece bem aquelas cavidades e o idioma de seus perseguidores e, no torso da aurora, da primavera da manhã, bate em retirada diante da iluminura do dia que chega.

Osvaldão recolherá tais ensinamentos para enfrentar generais.

Com sala cheia, “Osvaldão” estreia na Mostra de Cinema de SP.

Começou nesta quinta-feira (17) a 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O Filme “Osvaldão”, dos diretores Vandré Fernandes, Ana Petta, Fabio Bardella e André Michiles, estreou no Espaço Itaú de Cinema com sucesso de público e crítica. 


Reprodução
Cena do filme OsvaldãoCena do filme Osvaldão


















A força de Osvaldão, para Ana Petta, foi o destaque da obra, “as pessoas ficaram impressionadas com a força do personagem e os detalhes da história”, disse ela.

Detalhes estes que foram pela primeira vez apresentados no cinema. Apesar de já existir outras obras sobre a Guerrilha do Araguaia, entre elas “Araguaia, a Guerrilha”, de Vandré Fernandes; “Araguaya, a conspiração do silêncio”, de Ronaldo Duque e o documentário da Fundação Maurício Grabóis “Camponeses do Araguaia: a guerrilha vista por dentro”, não havia um relato sobre Osvaldão, que foi uma das figuras mais importantes desta resistência fundamental para derrubar a ditadura militar.


O filme que foi bem recebido tanto pelo público quanto pela crítica conta a história de um dos mais destacados guerrilheiros do Araguaia, Osvaldo Orlando da Costa, conhecido com Osvaldão. E o apelido não poderia ser diferente para um homem com mais de 2 metros de altura e uma força que os povos da região diziam ser além do normal.

“Foi muito gratificante ver o filme na telona pela primeira vez, ficamos satisfeitos com o resultado”, disse Ana Petta sobre a obra.

Os poucos familiares de Osvaldão, três sobrinhos, estavam presentes na estreia e gostaram do resultado de como o tio foi construído no cinema. A obra traz relatos dos moradores da região do Araguaia que conviveram com Osvaldão durante a resistência à ditadura militar. Frases como “era capaz de se transformar em pedra e em árvore”, “era muito forte”, ou “um mito”, dão conta de externar a experiência de quem pode conhecer este militante de perto.

Filho de ex-escravos, portanto nascido em uma família muito humilde no interior de Minas Gerais, Osvaldão deixou o município de Passa Quatro para estudar no Rio de Janeiro, devido à atitude e ao tamanho, nunca passou despercebido e logo seria reconhecido por outras qualidades além da inteligência fenomenal.

Na cidade maravilhosa, Osvaldão foi campeão carioca de boxe pelo Club de Regatas Vasco da Gama, na década de 1950. Mas preferiu abandonar a carreira de lutador ao conseguir uma oportunidade de estudar engenharia em Praga, na antiga Checoslováquia, onde viveu por vários anos. Membro do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), com treinamento na China, voltou para o Brasil para ser uma das figuras mais importantes da luta contra a ditadura militar.

O filme segue em cartaz durante a mostra e será exibido mais duas vezes, uma no dia 28, às 15h30, no Museu da Imagem e do Som, e outra no dia 29, ás 19h, no Centro Cultural São Paulo, na Sala Lima Barreto.


Por Mariana Serafini, da redação do Portal Vermelho

http://www.vermelho.org.br/noticia/251622-11

sábado, 18 de outubro de 2014

Noturno em São Domingos das Latas.

Por Paulo Fonteles Filho

Antes de tudo, oxalá
a vida, afinal
depois de tantas escaramuças
depois das mortalhas destinadas,
sobrevivemos.
O algoz nos espera
nas esquinas por onde passam os anos
e já sentimos a lancinante dor de seus mil punhais.
Muitos dos nossos partiram num febril troar de fuzis
e o paradeiro da morte estão em incontáveis listas
onde, afinal, os mordaceiros de todas as espécies
deixaram vis digitais.
Geme o ventre partido pelas esporas do gendarme.
As matas continuam sob um fogo
tão antigo quanto o medo.
As matas estão condenadas
ao festejo de imensas labaredas.
Dos alforges da memória saltam denúncias
dos cárceres, da maldita cadeira-do-dragão,
do secular pau-de-arara, do corta-cabeças,
e da colonial impunidade de nossa época.
Das manchas de sangue encrustadas
em nossas roupas de cancioneiro
aprendemos, nas escurezas,
a cantar.
Sempre foram nos ensinando
sobre os grilhões e as virtudes do silêncio.
Mal sabiam de nossa capacidade de traduzir
silêncio em verso, silêncio em mais silêncio,
preparando a vozearia libertária.
Sempre foram nos ensinando
sobre os perigos das vastas madrugadas
enquanto empenhávamos todas as forças
para arrancar das estrelas
a luminosidade dos dias.
Nossas lanças foram tecidas pela metálica lua
e das pequenas pedras do caudaloso rio
fomos fortificando a palavra esperança,
interpretando os minerais da serra martirizada.
Geme o ventre partido pelas esporas o gendarme.
Daqui olho antigos companheiros: estão serenos,
sérios, sorridentes, angustiados,
onde estarão tão antigos companheiros?
Lá fora o trôpego passo bêbado
de uma noite que já não é.